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A ORIENTAÇÃO FAMILIAR E O IDOSO Rosalia Keller Keller - Licenciada em Orientação Familiar. Instituto "Carlos Casanueva". Santiago do Chile. Tradução:Vilma
Azevedo da Silva Pereira – Doutora
em Odontologia Social e Preventiva. Prof Adjunta UFRJ. Atualmente a preocupação com os problemas oriundos do acelerado envelhecimento da população deixou de ser privativa de um reduzido grupo de profissionais especializados, interessando a vários setores, profissionais ou não. Isto traz como conseqüência a incorporação à Geriatria e Gerontologia, de novas profissões que têm como meta a intervenção no envelhecimento, a fim de conseguir uma melhora substancial na vida do grupo etário idoso ou prestes a ingressar na terceira idade. Na nossa opinião, a Orientação Familiar é uma dessas profissões que pode e deve reivindicar um lugar no mundo da Gerontologia, já que possui uma arma muito eficaz para a consecução dos fins mencionados; nos referimos às Oficinas de Desenvolvimento e Crescimento para o Idoso. Baseamos esta afirmação em uma vasta experiência profissional e sobretudo no informe de um grupo de trabalho da OPAS/OMS (1990) sobre um estudo acerca de Promoção de Saúde para os idosos na América Latina e Caribe. Consta deste informe que:
“A
promoção de saúde para a terceira idade deve ter como meta final
conseguir mudanças no seu estilo de vida que, ao mesmo tempo que previnam
enfermidades,......... e incapacidades, favoreçam o aumento da saúde e
sobretudo seu prazer de viver. Este último significa fazer uso produtivo
do tempo e das potencialidades do organismo, da mente e do ambiente
social. Não é suficiente promover ou restaurar a saúde, faz falta
conduzir seu aproveitamento para uma vida mais plena.
Tendo em vista que o objetivo básico
da promoção de saúde para os idosos é conseguir mudanças no seu
estilo de vida, com o apoio dos recursos existentes na Sociedade, um
primeiro passo é conhecer os mecanismos e técnicas existentes para
induzir mudanças neste estilo de vida.” (sublinhado pela autora)
Cremos que a experiência de 10 anos
de trabalho com idosos nos capacita a acrescentar ao informe que mecanismos
e técnicas absolutamente eficazes para conseguir
mudanças no seu estilo de vida são as Oficinas de Desenvolvimento e
Crescimento para Idosos. BREVES CONCEITOS SOBRE ORIENTAÇÃO FAMILIAR A palavra orientação deriva de “oriente”, lugar onde o sol nasce, que simboliza a iluminação, a fonte da vida. Neste sentido, “orientar-se” é ir para este foco de luz, sair da escuridão, poder “ver” precisamente isso, aprender a orientar-se. Orientar-se também é localizar-se, saber até onde caminhar e não se perder. Uma pessoa que aprende a se orientar sabe onde se encontra e como ir para onde quer ou deve. Em resumo, o objetivo da orientação é exatamente aprender a orientar-se. Consideramos que embora isso seja aplicável em áreas como a família, o casal ou a pessoas em diferentes etapas de desenvolvimento, como infância, adolescência, fase adulta e terceira idade, é neste último grupo etário que se produz uma mistura muito especial entre os longos anos vividos e os novos conhecimentos adquiridos através de uma aprendizagem significativa, vivencial e põe ao alcance dos idosos a possibilidade de auto-análise, de reconsiderar suas vidas, seus problemas, suas relações com os outros, aproveitar suas próprias aptidões e experiências para atingir uma vida mais consciente, plena e harmoniosa com seu ambiente. Esta aprendizagem, que se faz nas diferentes Sessões que compõem uma Oficina, é o que faz tão valiosa a sua realização para os idosos, porque, como eles dizem: lhes permitirá fazer importantes mudanças em seu estilo de vida, maior autonomia e melhor aproveitamento e desfrute do seu tempo livre. É necessário também esclarecer que, assim como na psicologia há diferentes escolas, como por exemplo a humanista, a comportamental, a psicanalítica, etc, na Orientação Familiar também há uma diversidade de enfoques; nós tratamos de um enfoque humanista que se apóia principalmente nas hipóteses do psiquiatra Carl Rogers, reafirmada pela educação libertadora do pedagogo Paulo Freire e ampliada pela teoria da Gestalt do psiquiatra Frederic Perls. AS PROPOSIÇÕES DE CARL ROGERS Como dissemos acima, o psiquiatra Carl Rogers, através do exercício de sua profissão chegou a conclusões que constituíram as base s fundamentais do ensino-aprendizagem e, portanto, da orientação. Rogers explica com muita clareza que existem dois tipos de aprendizagem que se localizam em dois extremos de uma escala, estando numa ponta a aprendizagem puramente intelectual , mental, cujo único objetivo é a aquisição de conhecimentos, no qual o educando participa só com a cabeça e aprende matérias que não são do seu interesse, não significam nada para ele e portanto não resultam em mudança de conduta. No outro extremo da escala estaria a aprendizagem significativa ou vivencial, na qual intervêm tanto os aspectos cognitivos como os afetivos e é muito mais que uma acumulação de dados. Rogers descreve isto com as seguintes palavras: “É uma forma de aprender que
marca uma diferença na conduta do indivíduo, em suas atividades
futuras, em suas atitudes e em sua personalidade: é uma aprendizagem
penetrante, que não consiste em um simples aumento do volume de
conhecimento, mas que se mescla a cada aspecto de sua existência. TEORIA PARADOXAL DE MUDANÇA Esta proposição sobre aprendizagem é base para a Orientação, no que diz respeito à importância da capacidade humana de introduzir mudanças no seu estilo de vida. C. Rogers crê que a natureza do ser humano é positiva: tem em si as potencialidades e a tendência a desenvolvê-las, a evoluir até sua maturidade psíquica; entretanto também vê que os indivíduos desenvolvem aspectos negativos, barreiras defensivas que vão ofuscando seu centro natural positivo e por estímulo de um ambiente ameaçador que os condiciona ou determina, deixam de ser eles mesmos, deixam de desenvolver suas potencialidades e deixam de funcionar de forma sadia e integrada até afastar-se do seu verdadeiro eu, deixando de lado os sentimentos, desejos, emoções e necessidades próprias. O resultado disso é a obstrução do seu potencial natural. Por isso:
Quando o homem consegue comportar-se e
ser como realmente é,
falamos da teoria paradoxal da
mudança. É paradoxal porque a pessoa muda quando aceita tudo o que é
e não quando tenta converter-se no que não
é, por imposições externas, ou seja: é
paradoxal porque muda quando não muda. ORIENTAÇÃO E ENSINO-APRENDIZAGEM Resumindo o exposto sobre a proposta de C. Rogers, aplicando-a à orientação, podemos dizer que: A orientação pretende que as pessoas usem e desenvolvam suas próprias capacidades e, utilizando os conhecimentos e informações necessários, tenham a possibilidade de enfrentar da melhor forma seus problemas pessoais, de inter relação com outros e com o mundo que as rodeia. A orientação é uma ação educativa na qual se pretende que os orientados vivam um processo de aprendizagem, tanto no que se refere a usar e desenvolver suas próprias capacidades , como à integração dos conhecimentos e informações que necessitem. O propósito da ação orientadora não é dirigir a vida das pessoas nem resolver seus problemas; pelo contrário, o propósito é que elas possam fazê-lo de maneira mais integrada, mais independente e melhor organizada. RELAÇÕES QUE DEVEM SER ESTABELECIDAS O orientador é um facilitador dessa aprendizagem. Para cumprir esta função, deve-se estabelecer algumas relações entre orientador e orientado; sem essas relações não é possível que o orientador alcance seus objetivos. Essas relações são:
O orientador é autêntico, é livre para ser a pessoa que é, não usa um disfarce, não recita um texto, não simula ser uma pessoa que não é. Se conhece e mantém uma coerência entre o que pensa, sente, diz e faz. Como reconhece e aceita seus próprios sentimentos, não precisa impô-los ou compartilhá-los com seus orientados. As relações que se estabelecem através de um texto decorado e de imposições são extremamente negativas.
O orientador aceita e respeita o orientado como ele é, com seus próprios sentimentos e opiniões, como uma pessoa diferente. Demonstra a confiança que tem nele e nas suas potencialidades, o que faz com que o orientado desenvolva e aumente a confiança em si mesmo. Não sentir-se aceito e a desconfiança são muito negativos.
A empatia é a capacidade de colocar-se no lugar do outro, entender seus sentimentos, ver o mundo como ele o vê e não avaliá-lo segundo critérios próprios. A compreensão empática é diferente da compreensão comum, que é avaliativa, porque está ligada ao que a pessoa pensa ou sente. O orientador empático compreende os sentimentos e as reações do orientado a partir da percepção deste, não o avalia nem julga, o que faz com que o orientado se sinta verdadeiramente compreendido e livre para continuas buscando seu desenvolvimento.
Sentir-se avaliado e julgado não é só
negativo, também faz com que a pessoa se feche e levante paredes ao seu
redor. C. Rogers reforça a importância de criar estas relações ao fazer a seguinte reflexão: “...
durante os primeiros anos da minha carreira profissional, me perguntava
freqüentemente: como posso tratar, curar ou mudar essa pessoa? Ao passo
que agora minha pergunta seria: como posso criar uma relação que essa
pessoa possa utilizar para seu próprio desenvolvimento? Para que as relações orientador – orientado aqui assinaladas possam ocorrer, é indispensável que o orientador tenha e desenvolva algumas características, tais como: auto crítica, autenticidade, brandura, objetividade, critério, flexibilidade, respeito, segurança de si mesmo, sensibilidade, etc. A CONTRIBUIÇÃO DE PAULO FREIRE É sabido que as teorias de Carl Rogers foram apoiadas e complementadas pelo pedagogo brasileiro Paulo Freire, um singular educador que dedicou seus estudos e seus trabalhos pedagógicos à alfabetização e educação de adultos, chegando a observações que resume como uma educação libertadora. Para chegar a ela, usou o método de PESQUISA (BUSCA) – AÇÃO, que tem como ponto de partida a fé no homem como o único ser vivo que tem conhecimento de si mesmo e do mundo que o rodeia.. Este conhecimento permite ao homem ver e enfrentar sua realidade, de refletir sobre ela e transformá-la criativamente.É neste ponto que coincidem Rogers e Freire, pois ambos vêem na aprendizagem o caminho para a Libertação do indivíduo. A CONTRIBUIÇÃO DE FREDERICK PEARLS A segunda contribuição fundamental mencionada é a teoria da Gestalt, de Frederick Pearls, que propõe a necessidade de chegar-se a um funcionamento sadio, holístico (integral) e homeostático, ou seja, equilibrado. O funcionamento é holístico ou integral porque todo o organismo participa, não há zonas obstruídas ou imóveis. Falamos de um processo homeostático quando se produz um equilíbrio entre as necessidades e sua satisfação. Se as demandas são variadas e simultâneas e a capacidade de resposta é limitada, o indivíduo sadio é capaz de hierarquizar as necessidades, determinar o que é mais importante e é isto o que tentará satisfazer em primeiro lugar, ou seja, conseguirá atingir o equilíbrio no processo homeostático. Se não ocorre este processo, a pessoa fica insatisfeita, imobilizada, com déficit homeostático. AS OFICINAS Descrevemos de forma muito breve as propostas dos psiquiatras Carl Rogers e Frederick Pearls, que constituem a base da orientação.Devemos esclarecer também que ambos privilegiavam a atenção em grupo à individual. A Orientação pode utilizar as duas formas, mas para o idoso é preferível a atenção em grupo, já que a aprendizagem significativa se potencializa com a interação que se produz no grupo. A experiência pregressa dos anciões enriquece enormemente esta interação. Às reuniões chamamos Sessões e à realização de várias delas com certa periodicidade chamamos Oficina. A escolha do nome de Desenvolvimento e Crescimento está relacionada a todo o descrito acima. É necessário que o grupo seja constituído por um mínimo de 8 e o máximo de 15 pessoas, para permitir uma verdadeira interação e uma participação igualitária de todos os presentes. As sessões serão semanais durante 6 a 10 semanas e em cada uma haverá um TEMA que será trabalhado aplicando uma DINÂMICA DE GRUPO adequada. As oficinas podem ser de dois tipos: estruturadas ou livres. Na oficina estruturada, o orientador propõe uma série de temas com uma seqüência determinada, produto de sua experiência de trabalho. Na livre, os temas surgem por propostas dos orientados e do orientador. Em ambos, o orientador prepara a Sessão escolhendo a dinâmica de grupo mais adequada, apoiando-a com os materiais que julgue úteis para a consecução dos objetivos propostos e documentando-se bem sobre o tema a ser abordado. Deve-se ter a compreensão clara de que a Dinâmica é que está a serviço do Tema e que por mais elucidativa e interessante que seja, de nada serve se não se enquadra no conteúdo do Tema, já que do Tema depende uma aprendizagem vivencial e significativa. AS SESSÕES Vejamos de forma sucinta o desenvolvimento de uma Sessão que componha uma Oficina. Recordemos que os componentes não devem ser menos que 8 nem mais que 15, suas idades flutuam entre os 60 e os 85 anos, sem rigidez na faixa etária. As cadeiras estarão colocadas em círculo, de maneira que todos possam ver-se; o orientador ocupa qualquer das cadeiras. Se faltarem componentes, não esperar mais de 10 minutos, em respeito aos pontuais. É recomendável que se comece com um relato simples que ajude a situar o grupo no Tema. Não é necesário anunciar o nome da Sessão; a ele se chegará no desenrolar da reunião. É bom recordar de tempos em tempos que o orientador não é um conferencista, e jamais deve comportar-se como tal. Seu papel é conduzir a Sessão, fazer perguntas que convidem à reflexão, preocupar-se que todos participem, cuidar que ninguém fique sem se expressar, não aceitar o “penso o mesmo que Fulano”. Usar da melhor forma possível os materiais preparados e não deixar de pedir, se necessária, a colaboração ativa de algum dos participantes. Distribua seu tempo, lembrando que dispõe de 90 minutos e que os últimos 5 a 10 minutos devem ser para o que chamamos de “fechamento e avaliação”, ou seja, reforçar os pontos mais importantes e escutar algumas opiniões dos participantes.
Como exemplo, citaremos o Tema
e a Dinâmica de Grupo nas 8 Sessões de uma Oficina
estruturada:
Tema: Apresentação dos componentes. Explicação do que é a Orientação. Dinâmica: Alegoria dos barcos e formação da rede.
Tema: Importância dos grupos. Dinâmica: Diálogo ilustrado.
Tema: A comunicação Dinâmica: Dramatização e apresentação de cartazes.
Tema: Necessidades bio-psico-sociais e forma de reagir frente às suas frustrações. Dinâmica: Problematização de cartazes ilustrativos.
Tema: Identidade e auto-estima. Dinâmica: Escutar um “audio drama” e confeccionar no bloco uma lista de defeitos e qualidades.
Tema: Imagens sagradas Dinâmica: Mediante longo relato, encontro com um personagem significativo.
Tema: Expressão de pensamento e sentimento Dinâmica: O coração em branco. (original da autora deste artigo)
Tema: Avaliação Dinâmica: Apresentação e distribuição de formulário. Esta Sessão deve ser precedida de uma explicação; na penúltima Sessão se anuncia que para finalizar a Oficina haverá uma Sessão de Avaliação, e com muita clareza deve-se explicar que de forma alguma são os orientados serão avaliados, pelo contrário, pede-se sua colaboração para que suas respostas sirvam para melhorar as Sessões e detectar os defeitos. Deve-se fazer com que os orientados sintam que podem atuar com total liberdade. CONCLUSÃO Expusemos em linhas muito gerais as bases da Orientação e enumeramos rapidamente as 8 Sessões que compõem uma Oficina estruturada. Não queremos terminar este artigo sem citar a resposta dos anciões na Sessão de Avaliação. Nesta Sessão, que deve existir em toda Oficina e ser sempre a última, é necessário incluir no formulário uma pergunta sobre o significado, para o orientado, de participar da Oficina. A resposta que sempre temos obtido com variações na forma de expressão, mas com o mesmo conteúdo é: me permitiu fazer mudanças muito positivas no meu estilo de vida. Acreditamos que esta apreciação do que significa participar de uma Oficina, feita pelos próprios anciãos, é a maior confirmação da seriedade do nosso interesse na sua realização e também justifica considerar a Orientação Familiar uma disciplina que merece um lugar na Gerontologia. Não abandonaremos nosso empenho para que isso se transforme, o quanto antes, em realidade.
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